sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Matéria da Time ajuda a dá visibilidade internacional à chacina ocorrida em Belém

Matéria da Time, produzida por Dom Phillips e publicada no seu site em 10 de novembro de 2014, noticia ao mundo o caso da Chacina ocorrida em Belém no madrugada do dia 04 para o dia 05 de novembro. Na matéria é entrevistada moradores dos bairros onde ocorreu os fatos e ativistas de direitos humanos. A matéria evidencia que as mortos ocorridas podem ter ligação com atuação de grupos de extermínio na região metropolitana de Belém. Vejamos a matéria traduzida por Raony Pinheiro, do Departamento Internacional da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos.




Assassinatos cometidos por Milícias no Brasil evidenciam brutalidade da polícia.


10 mortos em sangrenta noite de violência na cidade nortenha de Belém.



A morte de dez pessoas em uma cidade brasileira do norte do país na semana passada por uma milícia supostamente ligada à polícia militar brasileira tem levantado temores de um problema crescente com a violência policial em um país onde os novos números revelam que 2.212 pessoas morreram em confrontos com policiais no ano passado .


Dez civis foram mortos a tiros na terça-feira nos subúrbios pobres de Belém, uma cidade da Amazônia, Estado do Pará, em uma noite sangrenta de violência que durou até as primeiras horas da manhã. O massacre, aparentemente realizado por um único grupo de homens mascarados, se sucedeu após o assassinato de um oficial de polícia horas mais cedo que foi acusado de estar envolvido em uma "milícia" - no Brasil, termo utilizado para descrever uma organização criminosa que inclui o ex-policiais e/ou da ativa.

"Há uma grande probabilidade de que se não havia envolvimento direto de policiais da ativa, então havia pessoas que já passaram pela polícia", disse Anna Lins, advogada de Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos. "Foi execução sumária".

A organização dela faz parte de uma coalizão de grupos de direitos humanos, políticos e ONGs que pedem um inquérito na Assembleia Legislativa do Estado para investigar milícias no Pará. "Nós não queremos que a polícia aja sozinha nesta investigação", disse Lins.

Alexandre Ciconello, assessor de Direitos Humanos da Anistia Internacional Brasil, disse que há fortes indícios de que policiais estavam envolvidos. "Foi um massacre orquestrado para matar pessoas", disse ele.

A noite de caos começou quando Antônio Figueiredo, também conhecido como 'Pet', foi morto a tiros quando chegava em casa no início da noite do dia 04 de novembro. Ele era um cabo na força-tarefa especial, ROTAM, da Polícia Militar do estado - força policial ostensiva, ou 'ofensiva',  do Brasil,  que trabalha ao lado da polícia civil, que é responsável pelas investigações.

A Anistia disse que seus colegas policiais utilizaram as redes sociais para pedir vingança. "Nosso irmãozinho Pet acaba de ser assassinado", disse uma mensagem postada no Facebook pelo colega de Figueredo, sargento Rossicley Silva. "Vamos dar a resposta." Ele culpou uma guerra entre gangues rivais.

Um comboio de homens mascarados em motocicletas, e posteriormente em dois carros, atravessou os bairros, empoeirados e  dominados pelo crime, da Terra Firme e Guamá, entre outros, matando aleatoriamente moradores até a madrugada. A polícia já abriu uma investigação.
Sargento Silva disse mais tarde que sua postagem no Facebook tinha sido mal interpretada. "Eu pedi o apoio no sentido de combater a criminalidade. Nosso objetivo não é a vingança ", disse Silva, o site de notícias local Diário Online informou.

Um porta-voz da polícia civil de Belém, do departamento que lida com as investigações, disse à Time que Figueiredo foi suspenso das suas funções por motivos de saúde aquando da sua morte, e estava sendo investigado por dois homicídios.

Um porta-voz da polícia militar disse que não era possível confirmar uma ligação entre as mortes, seis das quais próximas uma a outra, e cinco aleatoriamente. "Todas as perguntas, análises e conclusões relativas ao caso e sobre a participação ou não da polícia militar nos eventos em questão estão sendo investigados e serão tornados públicos", disse o porta-voz, em um e-mail.

O Pará tem uma taxa de homicídios de 41,7 por 100 mil habitantes, de acordo com os números do Mapa da Violência de 2012 produzido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais no Rio. A taxa de homicídios de Los Angeles no mesmo ano foi de 7,8 por 100.000.

Um morador de Terra Firme, que pediu para não ser identificado por razões de segurança, afirmou que a milícia de Figueiredo estava competindo pelo controle do tráfico de drogas nas favelas sem lei, onde grande parte das mortes aconteceram. A milícia também atuou como um esquadrão da morte, disse o residente, contratado por negócios locais para matar membros de gangues de relacionadas ao tráfico de drogas. "Eles são como vigilantes que matam bandidos, então eles se tornam assassinos."

Quando 'Pet' foi morto em torno das 19:30 do dia 04 de novembro, moradores comemoraram com o lançamento de fogos de artifício. "Pet foi acusado de matar muitos jovens, ele liderou um grupo de extermínio", disse o morador. Alguns moradores já foram colocados sob proteção a testemunhas.

Eliana Pereira, Ouvidora Estadual de Segurança Pública do Pará e ativista de direitos humanos, disse que as mortes por vingança em Belém não seriam nada fora do comum para as milícias ligadas a policiais. "Este não é o primeiro caso. Houve outros massacres ", disse ela, citando o caso do ex-policial militar Rosivan Moraes Almeida, condenado a 120 anos de prisão em outubro por matar seis adolescentes em 2011.

O Rio de Janeiro há muito tem lutado contra um problema com milícias envolvendo policiais e ex-policiais envolvidos em atividades como cobrança de dinheiro para proteção e controle do fornecimento de gás e TV a cabo nas áreas mais pobres.

A Anistia Internacional disse que o massacre foi representativo de um problema mais amplo com a violência policial no Brasil. "A polícia brasileira é uma das forças que mata mais no mundo", disse Ciconello, assessor de Anistia.

De acordo com dados anuais, a serem lançados em 11 de novembro do Fórum Brasileiro de ONGs de Segurança Pública, dentro e fora de serviço a polícia brasileira matou 11.197 pessoas nos cinco anos antecedentes a 2013. A título de comparação, o Fórum, disse, a polícia dos Estados Unidos matou 11.090 pessoas nos últimos 30 anos.

O morador Terra Firme disse que dentre aqueles que foram mortos em Belém, incluem-se um homem de 20 anos de idade, que era cobrador de ônibus local e um rapaz de 16 anos de idade. "Queremos que o Estado investigue e que vivamos em uma sociedade com paz social", disse o morador.




Tradução Livre – Raony Pinheiro