A resistência dos povos originários, exemplo dos Muduruku na luta por direitos



Por Luah Sampaio
Fotos Rosamaria Loures




 “Viemos retornar para o lugar o que é dos nossos ancestrais”, diz o pajé Fabiano Karo, um dos guias espirituais que estavam no ritual de visita e resgate das Itiğ’a dentro do museu de História natural de Alta Floresta, estado do Mato Grosso. Ritual realizado pelo povo Munduruku, no final de dezembro de 2019, em uma reunião entre oito organizações do povo, mulheres, crianças e lideranças, direcionada pelos pajés, cuja pauta já fora discutida em diversas assembleias e encontros do povo, desde quando se deu a destruição dos lugares sagrados Karobixexe e Dekoka’a, com a construção das usinas de Teles Pires e São Manoel.

Um grupo de setenta Munduruku, em uma viagem de seis dias, por rios e estradas, pelos territórios do médio e alto Tapajós, e baixo Teles Pires, guiados pelos espíritos dos antepassados, comunicando-se com os pajés, diziam sobre a tristeza que viviam, presos, dentro de museu de Pariwat (não indígena). Com isso o equilíbrio espiritual de toda a comunidade de entorno de 140 aldeias e 14 mil indivíduos é desestabilizada e os processos de sobrevivência são alterados, suas condições de alimento ficam extintas e ainda há casos de morte. Uma comunidade reconhecida pela força na guerra, agora teme a falta da conexão com seus antepassados.

Depois de enfrentarem a negativa da empresa e do IPHAN em liberar o que para o pariwat eram vasilhames cerâmicos e que na verdade possuem valor imensurável para o povo Munduruku, ainda ouviram dos "porta vozes" da empresa propondo audaciosamente uma conversa com quatro representantes, em janeiro de 2020, para na ocasião decidirem o que fazer.  Ignorando, assim o esforço desta comitiva entre os Munduruku, em uma aliança com setenta indivíduos, vindos de aldeias distintas das Terras indígenas do rio Tapajós e seus afluentes, um grande esforço autônomo pois precisavam construir sua visita.

Chegando ao museu, realizaram o ritual do Masudi, procurando respostas dos espíritos, reafirmam em sua primeira carta: ‘Museu de Pariwat não é lugar pra itig’a. Esta é a terceira visita dos Munduruku ao seu sagrado, ancestral, “Permitida”pela empresa (CHTTP), esta que além de destruir os lugares sagrados, fortalece a descrença e desrespeito às cosmovisões e o tempo dos rituais sagrados que devem ser realizados em relação .


Veja a carta aqui.


Após apresentação desta carta , a comunidade Munduruku presente na cidade, fez uma ocupação política dentro do Museu de história Natural de Alta Floresta, “Somos guiados pelos espíritos e eles nos dizem o que fazer, os pajés conseguem se comunicar, mas todos nós sentimos” diz uma liderança presente, afirmando a necessidade de completar a tarefa. Durante esta ação, fazendo o que já foram preparados para fazer, conseguiram resgatar suas peças e levá-las para o local apropriado, onde queriam seus antepassados, e com isso ter um pouco mais de tranquilidade.


“...O objetivo da gente, nós como pajé, é chegar ao ponto positivo né, queremos. Nós vamos fazer algum tipo de trabalho para retornar tudo aquilo que foi destruído (...) até porque isso é uma herança do povo, do povo antepassado, dos idosos, essa é a nossa causa, não é pra inquirição de encrenca não, é uma forma de querer aquilo que é nosso, aquilo que era dos nossos antepassados.” Afirma o pajé.
O que se ouvia depois do resgate das itig´a dos professores, pilotos, mulheres, era sobre a felicidade em que se encontravam agora os espíritos. Todos puderam sentir, Eles agora poderiam enfrentar então, dizia um professor Munduruku, o que ainda estaria por vir dentro desse mundo de ganância dos pariwat.
                                       

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